School's out for summer

Agora que o curso acabou mesmo e eu pude voltar a escrever, fiquei devendo uma análise mais detalhada no último post.  
Quando falava para as pessoas que eu estava indo estudar no Canadá, eu recebia, na maior parte das vezes um “Parabéns! Vai ver o que é escola de primeiro mundo!’’ ou “Acabou a moleza, hein! Escola de primeiro mundo é outro esquema! ’’
"Onde eu vou usar isso do meu dia a dia, prof? Nos memes, querido aluno... nos memes!"
Ah... Escola de primeiro mundo!

Aqui é um ponto crucial: vamos separar ensino e prédio?  Capital humano separado de infraestrutura...

Prédio
Eu estudei na UFRJ e na UniRio. Duas grandes universidade federais. Os prédios onde tinha aula, nas duas instituições, eram prédios de, pelo menos, 50 anos de idade e espalhados pelo Rio. Prédio público + idade + falta de manutenção = família de andorinha no forro da sala de aula, coruja no forro do corredor, falta de porta no banheiro... Sujeira, sim... Situação de risco de vida, também...
Eu chegava a ter, no mesmo dia, aulas na Ilha do Fundão e na Praia Vermelha. No Rio, dos anos 2000, não havia Bilhete Único e o dinheiro era curto... lá íamos nós no ônibus inter-campi. Eu ainda tinha a “sorte” de não depender do trânsito de nenhuma via expressa.
Ruim? Muito!  Dava desânimo? Bastante!
Tenho um p*ta orgulho de ter estudado nelas? Claro!
Aqui, estudei na George Brown College. Tive aula em um único campus ( Saint James) mas em 3 prédios diferentes: A, B e E, sendo a maior parte das aulas no Saint James B. Era apenas atravessar uma rua para chegar de um prédio a outro.   O prédio B é uma construção recente, acredito que da década de 90. Já o A e o E foram reformas internas em prédios antigos, acredito eu, tombados.
Muita sala, muito projetor, muita cadeira confortável, wi-fi, banheiro quase sempre limpo, elevadores funcionando, mas... equipamento meio antigo nas aulas de laboratório. Por vezes meu cooktop não funcionava, faltavam peças para as batedeiras, mixers quebrados...
Vi casos de alunos que tiveram seus armários furtados e o college respondeu com “isso acontece!”

Resumindo em uma linha: O prédio daqui é melhor.

Ensino

No Brasil ainda temos um sistema conteudista. Muita gente critica... geralmente gente que não é da Educação, que nunca esteve numa escola fora da posição de aluno. Tem coisa ultrapassada? Sim. Tem coisa fora da realidade? Bastante. É melhor trocar para o sistema “norte americano”? Não!
A não ser que o desejo seja de ter jovens que sabem resolver cálculos complexos mas, ao mesmo tempo, não saibam onde fica Portugal.

Na UFRJ/UniRio, eu tive aula com muita gente boa ( uns não tão bons também). Uns puxando os debates, outros mais reservados ao papo pós aula, inclusive no bar. Coisas se resolvendo por email, desde segunda chamada até situações um pouco mais tensas. Bibliografias gigantes, teve também...Disponibilizada na xerox.  Todo mundo lá com seus mestrados, doutorados, pós doc., certificações e o escambau mas extremamente acessíveis.

Aqui a coisa muda muito de figura. Começando pelo ensino de base. Parece que aqui, no ensino médio, os alunos escolhem as matérias que querem fazer. Tem um número mínimo de créditos para cada área de conhecimento a ser cumprido. Na teoria parece bem bacana, mas acaba gerando problemas como o sujeito não ter conhecimento além do mínimo sobre Geografia física ( Ué, mas o Brasil não fica no hemisfério norte?) ou Matemática ( como é que 0,3333 vira 1/3?), por exemplo.

No meu curso do college, já no segundo termo*, percebi que todo o material dos manuais era baseado em um único livro. Olha só a malandragem gringa! Vamos montar um curso de 2 anos, baseado em um livro, partimos esse livro em 6 manuais e vendemos o manual como obrigatório. Gênios, né? Me diz se isso funcionaria no Brasil?

Outra coisa é que tudo muito formal, extremamente formal, nada prático formal. Todas as ementas tinham que conter o mesmo texto falando sobre Direitos Humanos, Equidade, Respeito as minorias. E eram bem umas 5 páginas, com o mesmo texto. E sobre a política contra Plágio e uso de Fontes Certificadas. Se você precisa de um documento, não adianta mandar um email. Você tem que ir, pessoalmente, requerer esse documento.
Sem contar a quantidade de trabalhos em grupo. Os trabalhos em grupo têm que ter contrato de trabalho, especificando o que cada um vai fazer, quando, como, onde e o que acontece se o contrato for descumprido. Às vezes, eu ficava tão estressada com esses trabalhos de grupo que estourava um monte de espinha na cara e, logo depois, o herpes. Uma bosta!

O capital humano é um caso especial. Como a maior parte dos meus professores eram chefs de cozinha, já não contava muito com didática. Só tive um “problema” com uma chef, o que foi resolvido com uma carta e um pedido de desculpas a mim. Tive professores muito maravilhosos, que vc percebia o quão f*da o sujeito era só de ver o jeito como dava bom dia e tive uns bem m*rda mesmo, que chegavam no primeiro dia de aula tascando no slide seu currículo acadêmico para apreciação e atochando trabalho como se ninguém fizesse mais nada da vida. Também tive professor preguiçoso, que dava como projeto do curso a montagem de um blog e uma dúzia de tarefas iguais ao que tinha passado para a turma anterior. Estava tudo ali, a meia dúzia de cliques no Google.

Resumindo em uma linha: O ensino daí é muito melhor.

O que falta pro Brasil é infra. Capital Humano, a gente tem em quantidade e qualidade.
Segue o Baile!


* Aqui o tempo de curso é contado diferente. 1 college year ( ano de college) tem 2 terms( termos) cada term tem 14-16 semanas, o que dá 8 meses. E os outros 4 ? Summer Break ou férias.
Na prática, meu curso de 2 college year teve, de fato 14 meses pois ainda tive greve nesse período.


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